-- Não deveria ser assim, sabe? Não pra gente...
Ele me dizia na mesa suja do bar perto da faculdade
onde a gente sempre reclama. Enquanto fumamos cigarros diferentes e gostamos de
músicas diferentes, a dor é a mesma.
Eu, taurina de ascendente em virgem. Ele, leonino
com ascendente em virgem. Dois sem sorte. Incríveis. Podíamos falar horas de
filmes, músicas, sonhos, decepções... Cuidadosos, carinhosos, importosos, se é
que isso existe.
-- Não sei qual o problema, juro... Parece que a
gente faz tudo certo, mas algo sempre estraga...
-- É essa mistura estranha de Carrie, Charlotte e
Samantha, sabe? Uma bosta.
Eu rio. Apesar da comparação meio high school, é bem
verdade. Temos coração promíscuo. Agarramos-nos em tão falsas esperanças. Não
nos prometem nada e acreditamos na menor das expectativas. Se a gente pudesse
pelo menos esquecer os toques, os beijos, os karmas eternos...
Peço suas mãos e começo a mexer nos pelos do seu
braço. Calmamente, só analisando o porquê de tanto desastre assim.
-- A gente devia parar com essas Carries e
Charlottes, por favor.
-- Siiiiiim, vamo? Por favoooor? Ele me diz com a
voz doce e aguda de menino esperançoso.
-- A gente não pode, Pedro, você sabe, a gente tenta
e não consegue.
-- Não sei por que sugeri isso, desculpa.
A gente ri, toma outro gole de cerveja e continua a
reclamar da falta de sorte. O assunto muda e a gente conversa sobre a festa do
final de semana. É, aquele restinho de esperança, sabe?
Às vezes eu me pego pensando no quanto sou grata. De
todos os homens que já tiveram alguma significância pra mim, o leonino supera
tudo. Apesar dos gostos diferentes, é incrível como sou grata por ele. O
carinho é tão grande que às vezes nem me cabe no peito. Grata pelo empréstimo da casa na sexta, por tentar me proteger de ver o beijo sábado. Por ser sempre tão pai,amigo,irmão.
Amamos com toda molécula do corpo. Intensos demais,
esperançosos demais, perdedores demais. Mandamos mensagens inapropriadas de
madrugada, ligamos bêbados e chorando. E a esperança de compreensão não acaba.
Isso é melhor que qualquer outro tipo de coisas em comum. Se você não existisse, a loucura, já em doses tão cavalares, expandiria pelo mundo como doença.
Agora sinto raiva por esse texto estar tão
pré-adolescente. Mas é bem nossa cara. Escrever nome em caderno pra depois
apagar. Tentar mudar, agir friamente, não ligar, não responder as mensagens. E
aqui estamos de novo, chorando dores de velhos e novos amores...
Pelo menos posso citar Caê, um dos poucos gostos em
comum, pra afirmar com certeza que para desentristecer, leãozinho, o meu
coração tão só, basta eu encontrar você no caminho.
Pela força, pelo riso, pelas lágrimas, pelas noites
em claro, pela juventude e velhice que compartilhamos... Por tudo. Meu leão.
Forte e nem percebe. Sendo leoa por você aqui, do lado. Tão forte e nem
percebo. Eles não nos merecem, leãozinho...
Eu te amo.
Aos dezoito anos, tinha envelhecido. Desde que se
entendia por gente o consideravam carrancudo, tímido, com olhar de fome. Isso o
fazia parecer mais velho, mas acabado e meio acabrunhado. Não tinha nem trinta
anos, mas já teria histórias para ilustrar de guias de viagens a livros
vagabundos com posições do kama sutra.
Tinha como extrato uma mistura estranha e sôfrega de
cervejas, marlboro light e whisky. Camisas puídas, talvez de aguentarem puxões
de brigas em bares ou nos quartos de motel por aí, não tinha certeza.
Geralmente não se preocupava em tentar explicar a origem dos seus arranhões,
nem dos seus problemas, nem das suas escolhas. Andarilho por natureza, barba,
bigode e carranca.
Andava de volta pra casa depois de comprar cigarros e
camisinhas. Maldito cigarro de menta. Era o pior pra ele. O efeito de um dos
cigarros costumeiros só era alcançado com uns três ou quatro desses de
bichinha. Sem contar que não era lá muito ofensivo à garganta. Não sentia
aquela dorzinha meio filha da puta da fumaça digerida.
Reclamou do cigarro pela última vez e esvaziou a cabeça.
Andou poucos passos e ouviu a voz. Não tinha ideia de onde aquele timbre tinha
surgido. Tinha Ficado bêbado e não percebeu? Entonteceu um pouco, examinou a
rua. Alguns gatos pingados andavam sem prestar atenção, mulheres de saltos
imensos e saias de um palmo. De onde aquilo vinha? Ela cantava algo meio
indistinguível, meio cômodo. Sentia-se perturbado e curioso e só queria
identificar de onde vinha. Percorreu algumas ruas enquanto a sonoridade aumentava.
Um bar de cortinas vermelho carmim, bem surradas, sem placa, sem visão. Assim
que agarrou a maçaneta do portão enorme, a música para. Teria de ver quem era
agora ou poderia cair em desgraça ali mesmo. Era uma curiosidade estranha,
curiosidade de viajante, escritor, virgem, menino.
Cantava. Mesmo que não houvesse mais de três pessoas
naquele bar. Sentia-se cansada, tentando prender-se no salto fino, nas meias e
no vestido justo vermelho. Não era a coisa mais atraente que tinha vestido
desde que tinha conseguido conseguir cantar ali. Mas algo a dizia que hoje
deveria ser mais alta em tudo. Voz, sangue, pressão, garganta. Parecia que
clamava por alguém, mesmo que a própria não conseguisse dizer quem. Nenhuma
daquelas pessoas estava sequer prestando atenção, mas queria salvar-se. De
qualquer maneira. Cantava...
Era a preferida. Nina. Não sabia disfarçar muito bem
quando cantava uma música que realmente gostava. Abriu o sorriso e os dois
botões ao lado do vestido, perto das pernas. Precisava ficar confortável para
essa. Até que percebeu alguém aparecer por entre as cortinas do fétido lugar.
Se rosto não era muito perceptível pela luz. Só via a silhueta tomar forma na
cadeira e pedir alguma bebida enquanto ela começava a entoar a música. ‘Baby, do you understand me now? If sometimes you see
I'm mad…’ Queria vê-lo. Não sabia exatamente o porquê daquilo.
Sentia aqueles olhos, provavelmente castanhos, como de homem de verdade,
fitá-la. Não tinha nada demais. Os cabelos estavam presos num coque mostrando
um pouco o pescoço, com alguns cabelos soltos no elástico, batom vermelho,
vestido da mesma cor, meias arrastão. Mas não era tão bonita como aquilo tudo,
pelo menos não se sentia. Mas... Era diferente. Via mais claramente agora, os
olhos, castanhos mesmo, como os seus. Parecia estar sendo fodida ali, no palco,
pelos olhos, pela simples presença dele ali. Sentia uma vontade imensa de se
tocar pra todo mundo, tirar o vestido, tirar a máscara de elegante e sentar-se
no colo dele pra saber se era grande. Horror de se ver assim. Horror de estar
tão nua na frente dele.
Ela tinha olhos castanhos. E cantava num inglês perfeito.
Parecia que provocava sem saber. Mexia as ancas, fazia pequenos movimentos com
a cabeça e o cabelo balançava. Mal havia começado a cantar, mas ele se sentia
fisgado. Sentia-se ereto. Estava. Não saberia descrever a vontade que tinha de
arrancar seu vestido e suas meias, ali no palco mesmo. A tempestade que chega é da cor dos teus
olhos castanhos...
Iria até lá. Não pensava mais. Não esquecia a letra, mas
esqueceu de si mesma. ‘Don’t
you know that no one alive can always be an angel? When everything goes wrong
you see some bad…’ Caminhava aos olhos dele. Desprendia-se. O
corpo inteiro em frenesi. Mexia as ancas, arrancava aquele olhar para seu corpo
inteiro. Deus, como ele a transformara. Estava em transe com a troca de olhares
enquanto os corpos se aproximavam. Ele era indescritível, com uma brutalidade
natural. Estavam a menos de cinco passos um do outro e a luz estava agora
insuportável. Alguém lá de cima estava gostando do que via. E ela tinha
certeza.
‘You know sometimes,
baby, I'm so carefree, with a joy that's hard to hide…’ A
alça do vestido agora se debruçava sobre seu ombro esquerdo. Ele tremia e
latejava em várias partes diferentes do corpo. Havia uma força completamente
estranha que o mantinha naquela cadeira. A voz, o cheiro, o corpo, as meias...
Num gesto completamente abusivo, ele estende o copo de whisky puro para ela e
ela recebe. Cantarola mais alguma parte da música e se emudece enquanto toma um
gole daquilo. Frágil, fingia não ter sentido a garganta esfolar-se um pouco e
voltou ao seu espetáculo, em voz e corpo. ‘Then sometimes, it seems again that all I have is
worry, and then you burn to see my other side…’
Tocava o rosto dele com o dedo indicador sem entender
direito o porquê. Parecia que se o tocasse completamente derreteria, tinha
medo. Ele não parava de encarar, parecendo um pouco sonolento, bêbado ou apenas
estafado. O tinha sugado a vida sem sugá-lo? Não tinha ideia do que exatamente
fazia, apenas esperava que ele entendesse. ‘But I'm just a soul whose intentions are good. Oh
Lord, please don't let me be misunderstood…’
Ele iria explodir se não fizesse alguma coisa, rápido.
Enquanto ela se virava para voltar ao seu lugar, ele segurou-lhe pelo vestido,
num gesto estranhamente forte. Sentou-a em seu colo, cuidadosamente para não
assustar aquela que parecia a mistura perfeita de fêmea e garota. Ela dançava
devagar em seu colo, ainda cantando, por mais difícil que fosse. Ela sentia o
membro latejar por entre suas coxas. Molhada e com a garganta seca. Não via mais
ninguém, apesar do raio de luz de holofote que estava acima dos dois. Implorava
silenciosamente com os olhos para que ele a tocasse sem pudor nenhum. Enquanto
as mãos dele percorriam o interior das coxas revestidas pelas redes das meias,
sentia as penas tremerem e o pé se contorcer por dentro do sapato. ‘Oh baby, I'm just human. Don't you know I have faults
like anyone?’
Rasgou-lhe as meias. Queria sentir a umidade e o calor. Usou
as unhas e os dedos com tanta força que teve de segurá-la com mais força no
colo. Ela ainda cantava, com a voz extremamente rouca e bêbada de querer mais.
Sentia as unhas longas e os dedos fortes o segurarem por cima das calças. Com
uma mão só, ela o tocava inteiramente, com movimentos circulares
milimetricamente sincronizados com o movimento dos quadris. Precisava senti-la
por dentro, enfiava os dedos enquanto ela gemia, enquanto ela cantava.
Agarrou-a delicadamente pelo coque e aninhou sua cabeça em seu ombro,
sincronizando as duas vozes aos dois movimentos, as duas mãos: ‘I try so hard,so
don't let me be misunderstood...’
As luzes apagaram em um instante. Ele ouvia risadas
vindas de lugares indefinidos. O peso em seu colo se desfez e ele apenas
sentia-se leve, no bom e no mau sentido. Viu o corpo miúdo e de meias rasgadas
correr até o fundo do palco,talvez com vergonha ou talvez com orgulho. Eles
foram o final inesperado daquela noite insone de três bêbados e um garçom.
Sentia-se estranhamente vestido, tão contrário da última vez, parecia tão natural
estar despido ali...
Esperava por ela fumando um cigarro atrás do outro. O sol
quase nascia, quase duas horas de espera ansiosa e de incontáveis cigarros de
menta. Ouviu um barulho de passos e alertou-se. Ela preparava-se para ir embora
acendendo um marlboro light e tentando ajustar os sapatos baixos nos pés
cansados. Arqueou a cabeça e o viu. Envermelhou-se, alargou os passos e andou
na direção dele. Tão carrancudo. Num gesto estranho, tornou-se de novo cantora
de bar, arrancou aquele maldito cigarro de bicha de sua boca, lhe beijou os
lábios rapidamente e sem língua. Em seguida acendeu o cigarro que havia
substituído rapidamente entre seus lábios, ágil como felina.
Não perguntariam os nomes um do outro até se sentirem
confortáveis. Caminhavam com passos lentos na mesma direção. Olhares trocados
rapidamente, pernas tremidas, ereção ainda ali, umidade ainda ali. Deus sabe
que canções seriam as de logo mais.
Pro Renan. :)
As meias três quartos rasgadas eram usadas pela milésima
vez ao dia. Ele era realmente um monstro. Corria quase toda semana apressada em
alguma loja pra comprar um novo par. Não aguentava tanto dinheiro gasto pra
satisfazê-lo.
Incrível como ele ainda tinha cheiro de rosas vermelhas e
patchouli. Era dele, sem nenhum perfume. Era a marca que ela mais gostava.
Apesar da enorme cicatriz no peito da segunda ponte de safena, ainda era a
marca do cheiro que a impressionava. Rasgava-lhe as meias, as blusas, puxava-lhe
o cabelo e lhe chamava de cadela. Tinha dono. Nos incontáveis hotéis da cidade,
era ela a companhia. Marcada à ferro e fogo pelo membro e pelos tapas daquele
senhor.
Enquanto se vestia de meias listradas em preto em branco
e fazia a maquiagem no espelho, cantarolava ‘Somewhere Over the Rainbow’, já
ensaiando a lolita que encarnaria naquela noite. Dorothy iria encontrar o
mágico de Oz pra ser espancada de novo. Por mais brega que fosse, já sentia a umidade lhe fazer ruborizar.
A calcinha de laços não lhe servia mais. O dinheiro do
velho ia todo pra porcaria e pra cigarro. ‘Se eu engordar, volto pra casa mais
roxa ainda’, temia. Os gatos escaldados tem medo de água fria, e o jato viria
quente, e pela cara toda, era melhor se preparar.
As coxas estavam arranhadas, esmurradas, vermelhas da
noite anterior. Desejava-lhe a morte, que o excitasse tanto ao limite de um
ataque cardíaco. Mas ele era resistente e de uma virilidade fora do comum. 60
anos tá fazendo semana que vem e ainda a conseguia deixar morta, esfolada e
esgotada, dolorida por dias e com cheiro de porra.
O dinheiro é bom. E o cheiro... Porra, o cheiro. Poderia
arrancar cada pêlo daquele peito e não conseguiria extrair o perfume. Difícil mesmo é ainda estar radiante,
arrumada e sem poder gemer de dor.
Via aquelas marcas no espelho e se sentia doente,
inebriada e nostálgica. Lembrou-se da vez que rolou da escada aos cinco anos.
Joelho ralado, pé torcido e rosto banhado em sangue. O desastre se tornou forma
de vida. Chegava em casa, pegava o vibrador e tentava esquecer das marcas.
Vela, chicote, vendas, mão livre, marcas de cigarro queimado sobre a pele,
socos e empurrões. Satisfazia-se com as lembranças enquanto o troço vibrava,
mas na hora era o inferno na terra.
Não sabia mais quanto ganhava por dia, nem se gostava, se
detestava, se gozava. Queria que em algum dia, ele a acarinhasse. Mas ele não
consegue, abaixa sua calcinha, a cheira, morde, enfia, bate... Ele não
conseguia. Ainda morreria num encontro desses. Mas ah, o perfume... Quem será que
o marcou tanto assim?